quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Cinzas

-Maria, ele ainda está aí com você? 
-Ele nem ficou aqui Sophie, se ficou foi uns quarenta minutos e foi embora.
-Nossa, pra onde será que ele foi?

Sophie então desliga o celular e a ruga de dúvida e curiosidade cobriu-lhe a testa. Onde será que ele foi?
Subiu a ladeira vagarosamente em direção a casa de julinha, estava um dia nublado, cinza e uma leve neblina cobriam-lhe os olhos. O cheiro de chuva prestes a cair fazia com que apressasse o passo. Avistou a casa de Julinha, aproximou-se e entrou.
-Julinha, você está aqui? Chamava insistente sem obter resultado.
Foi entrando chamando pela amiga que havia deixado a porta aberta com instruções para que ela entrasse e se caso ela não estivesse que se sentive a vontade e confortável.
Sophie entra pela sala de estar, e não consegue ver nada claramente, apenas vultos dos móveis num tom acizentado, talvez pela influência do dia tão sombrio que se manifestava.

Sentou-se por alguns instantes numa poltrona macia, sentiu seu corpo estremecer de frio. Passou as mãos nos braços na tentativa de  aquece-los. O silêncio era sua companhia, perguntou-se onde estaria todo mundo?
De repente ouviu seu estômago e lembrou-se que havia saído de casa sem comer. O frio só aumentava a sua fome. 
Vou ao mercadinho. Levantou-se da poltrona e seguiu ao antigo mercadinho perto da casa de Julinha, recordou-se que há muito tempo ela havia trabalhado alí. Sentiu-se nostálgica, assim como num filme, o passado rodou em sua mente.


Entrou no mercado, muitas coisas haviam mudado, há mais de trinta anos não havia ído nesse lugar. Entrou e sentiu o ar gelado invadir-lhe os pulmões, não foi sempre assim, havia um calor e muita vida lá dentro. Continuou a prosseguir e notou que estava vazio também, nada, ninguém nem uma viva alma. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha, estremeceu.
Continuou adentrar e notou que a porta dos fundos que levava ao depósito estava entreaberta. Tocou na porta, empurrando-a vagarosamente.
Um faixo de luz, iluminava a escuridão através de sua sombra, chamou por alguém, mas não obteve resposta. Continuou a entrar e se aproximou de um velho elevador, mas aqui havia um elevador? Perguntou-se.
Voltou-se em direção a porta por onde havia entrado e um barulho fez com que se voltasse novamente para o elevador.


Ela não acreditava no que seus olhos viam...
Ele ali parado tentando abrir a porta do elevador. 
Suas mãos gelaram e seu coração parecia que iria saltar pela boca. Não acredito, não acredito, pensou.
Aproximou-se dele, com lágrimas nos olhos e depois de tantos anos poder ver seu rosto novamente. 
Os dois ficaram imóveis, olhando para o outro.
 

Meu Natal sem Natal




Montei minha árvore de Natal, está certo que não tinha ninguém para compartilhar, mas era preciso monta-la.
Era como exorcizar a tristeza que eu sentia por me sentir sozinha e estar sozinha. Fui colocando os enfeites um por um, e como um filme, todos os outro Natais passaram na minha mente.
Momentos de risos, festas, amigos e principalmente a família.
Os presentes debaixo da árvore e os olhares curiosos das crianças na espera do presente.

O cheiro das comidas, dos assados, das bebidas e toda aquela energia boa que pelo menos em um dia do ano todos transmitiam uns aos outros. Mas..... Tem sempre um mas em nossas vidas....
Mas as coisas mudam, os sonhos não são os mesmos e as mesmas crianças com os olhares curiosos diante dos presentes  e eles cresceram. 
Não há mais árvore, não há mais o cheiro de comida no, nem de bebida, apenas há o silêncio.
E os amigos? Ahhh, esses nem sei por onde andam... Talvez estejam ocupados demais, vivendo suas vidas assim como deve ser.
Não há mais as risadas nem as trocas de presentes porque sem pessoas isso é impossível. 
Ao terminar de montar minha árvore, olhei pra ela e confesso que não pude conter as lágrimas. Lembrei-me de todas as coisas pelas quais passei, superei e todos os natais que eram natais, com todas as coisas que todos merecem ter. 
Sentei-me e continuei a olhar para ela. 
Fechei os olhos e busquei na memória meu melhor natal.
E sinceramente foram tantos que fica difícil escolher.
Mas somos egoístas, queremos sempre mais e mais... Só que dessa vez não será assim. 
Então, levantei-me e senti uma paz muito grande. Senti alívio, pois não preciso procurar a melhor roupa, comprar isso, ou aquilo. Não precisarei mentir pra mim e para todos dizendo que o mundo é lindo, pois infelizmente não é. Não precisarei abraçar quem me odeia e desejar "Feliz Natal" para a ingratidão.
Senti-me aliviada, pois não precisarei mostrar pra ninguém o quanto estou maravilhosa, fingindo pra mim e para os outros um estado de espírito que não é compatível.
Fiquei confortável pelo fato de não precisar ver as pessoas que ficam o ano todo se maltratando e só porque é Natal ficam se suportando.
Olhei para mim e vi uma criatura completa com seu dever cumprido e com toda a sua liberdade diante do seu nariz. 
Montar a árvore de Natal sozinha me fez entender que no final é tudo entre você e você mesmo, ninguém para sua vida para te ver sofrer e que é preciso ter coragem para viver.
Meu Natal sem Natal, sem dúvida é a paz que eu gosto sentir e ter. Afinal, Natal é meu amor pelo Filho de Maria e estar em paz comigo mesma.

Márcia Hany
Terapeuta Practitioner EFT